terça-feira, 22 de maio de 2012

Refúgio Mental (13)


Minha mente é um dos lugares para onde eu ia quando queria me afastar do mundo real. Bastava fechar meus olhos e pronto, lá estava eu num lugar onde nada supostamente poderia me alcançar. Já falei disso no post sobre dificuldade de aprendizagem, ansiedade e medo.
Acredito que todos nós, vez ou outra, sonhamos acordados. Afinal, quando somos crianças e brincamos com nossos brinquedos, isso envolve certa capacidade de abstração e distanciamento da realidade. Mas e quando ansiamos pelo momento em que, mesmo no meio do dia, deitaremos na cama, cobriremos o rosto com o travesseiro e viajaremos para o “mundo das maravilhas”? E quando precisamos fechar os olhos para nos sentir um pouco melhor?

É engraçado, pois minha mente existia numa constante antítese na qual, sonhando acordado, eu era o herói ou o desbravador de mundos, enquanto que de olhos abertos eu vivia numa constante falta de motivação. A escola era o lugar onde eu me sentia cercado e a minha casa era o supremo tédio. Não sempre, claro, apenas quando eu precisava ficar sozinho por muito tempo.
Embora sonhando acordado as coisas fossem boas, dormindo era diferente. Claro que nem chegava perto do que se tornaria pouco tempo depois, mas depois falarei sobre isso... Acontece que minhas noites “eram” ruins. Não dormia bem e sempre tinha pesadelos. Eu coloquei as aspas na palavra ”eram”, pois até hoje tenho pesadelos ou sonhos completamente malucos, todas as noites. Acho que isso merece um post e mais tarde falarei sobre os pesadelos.

Dizem que todo mundo sonha todos os dias e que o que acontece é que nos esquecemos. Mas eu sempre lembro que tive algum pesadelo ou, pelo menos, algum sonho maluco, exceto quando bebo muito, coisa que não é muito comum.
Enfim... Minha infância inteira foi uma fuga, seja me excluindo de todas as atividades da escola, mergulhando em minha mente ou negando tudo o que me afligia, como se fosse possível simplesmente esquecer.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Sua mãe não te deu educação?

Eu ouvi essa frase do título quando eu estava na primeira série e tinha por volta de 6/7 anos. É engraçado, pois é algo tão pequeno, mas que me marcou muito. Eu estava no pátio da escola e a professora estava conversando sobre sexo com outra adulta. Então eu perguntei: “Vocês estão falando sobre sexo?”. A resposta imediata foi “Sua mãe não te deu educação?!”. Pude perceber que a professora ficou constrangida com a pergunta, pois não era algo que ela esperava. Por alguns instantes eu congelei. Depois disso eu devo ter ido pra algum canto do pátio, não me lembro.

Não sei se é natural que eu, com a idade que eu tinha, fizesse perguntas desse tipo ou manifestasse essa curiosidade. Não sei se essa simples pergunta pudesse ser um indício do que estava acontecendo. Mas a questão é que a reação daquela professora em nada contribuiu e deve ter me deixado ainda mais complexado. Então acredito que é algo interessante a ser observado, pois é importante que um profissional que esteja em contato constante com crianças possua uma percepção apurada e alguma espécie de treinamento para saber identificar possíveis abusos e maus tratos.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

E então ele me disse: “Eu já mandei matar muito gente” (12)

Sabe aquela criança que sempre está sentada num canto? Olhando pro nada ou mexendo em alguma coisa... Pois é. Esse era eu. Como eu já disse no post sobre a minha primeira amiga, na minha infância eu me apegava muito a qualquer um que me desse um pingo de atenção. A próxima pessoa a me dar atenção era um indivíduo qualquer, que chamarei de Osvaldo, conhecido de um dos vizinhos e que passava por ali - onde eu morava - frequentemente. Lembro-me que certo dia ele veio conversar comigo e perguntar o que eu estava fazendo sentado na frente de casa. Foi aí que começamos a nos falar. Nessa época eu não tinha mais que oito anos e frequentava as aulas com aquele professor violento.

Ele nunca me agrediu e sempre foi educado comigo. Ele entra na timeline de eventos perturbadores da minha vida por outro motivo.

Osvaldo sempre passava nas vizinhanças e no caminho conversava comigo. Na verdade nem eram conversas... Tudo girava em torno de músicas que ele conhecia e fazia com que eu cantasse junto com ele. E isso não era nenhum constrangimento, mas sim o ponto alto dos meus dias. Não demorou a que eventualmente ele me chamasse para andar com ele. Em geral ele ia comprar cerveja e pedia para que eu o acompanhasse, para fazer companhia. Como ele era amigo daquele vizinho “gente boa”, não havia qualquer motivo para que desconfiassem.

Numa dessas vezes, com uma garrafa de cerveja na mão, ele me disse, num tom de desabafo: “ – Eu já mandei matar muita gente. Já mandei até matar a minha mulher, mas ela não morreu”. Ele se dizia arrependido e queria ser uma pessoa diferente. Talvez ele visse em mim algo que ele nunca teve... Não sei os motivos... Hoje, olhando para o passado, eu o classifico como desequilibrado.
Toda aquela experiência obviamente se tornou exaustiva e assustadora quando me dei conta de que eu estava com um assassino (ou ex-assassino?) rondando o bairro em que eu vivia e que bastante comumente cumprimentava os meus pais. Sem contar o fato de ele ter começado também a falar da arma que ele tinha e outras coisas relacionadas a ela que não quero falar aqui. Bom, os monólogos em que ele contava do seu passado recente e de como ele queria mudar isso continuaram e eu não sabia como me desvencilhar disso.

Sem que eu esperasse, algo de grave aconteceu e meus pais me disseram que eu não voltaria a vê-lo. Eles estavam certos e nunca mais o vi. Foi um alívio.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Você era uma criança tão alegre. O que aconteceu? (11)


Não sei que idade eu tinha quando me fizeram essa pergunta pela primeira vez. Acho que por volta dos dez anos. A primeira pessoa a me questionar sobre isso foi um parente próximo. Não foi uma pergunta feita com a intenção de obter uma resposta. Era mais a constatação de um fato.
Vou pular um pouco a ordem cronológica, afinal muitas coisas aconteceram até que eu chegasse aos dez anos de idade, mas quero falar sobre isso agora. Eu me afastei das pessoas e me tornei uma criança bastante reservada e calada. Essa mudança de comportamento não foi imediata, mas sim gradativa. Lembro-me de brincar na rua, de andar de bicicleta pelo bairro e pelos bairros ao redor. É engraçado perceber que passei por algumas fases. Primeiro eu só saía de casa se estivesse na presença dos meus pais e sempre para ir para a escola ou algum curso. Fora nesses casos eu nunca saía, com exceção de raras idas ao parque.

Depois eu fiquei um pouco mais velho (8 anos) e comecei a sair de casa, a descobrir a região onde morava e conhecer novos lugares. Cheguei também a me envolver com más companhias e me afastei das mesmas ao perceber o rumo que as coisas tomavam. Percebi que o controle que meus pais tinham sobre mim era bastante frágil, pois não possuíam nenhuma forma minimamente eficiente de controlar o que eu fazia (além de me manter em cursos N), afinal estavam sempre fora, trabalhando.  

Em outro post eu disse que fazia um curso extraclasse no qual um professor tornava a vida de parte de seus alunos um verdadeiro inferno. Bom, esse era o curso que mais me mantinha ocupado e depois que deixei de frequentá-lo (após discutir com o professor, coisa que deveria ter feito no primeiro mês de aula e não anos depois) o meu tempo vago era maior e minha disposição a frequentar novos cursos, proporcionalmente menor. Mas estou sendo prolixo... A questão é que essa fase mais dinâmica (no que se refere a sair para brincar, explorar etc.) não durou muito e foi aí que me tornei realmente bastante reservado.

Mais ou menos nessa essa época uma coordenadora da escola me fez essa mesma pergunta do título. Me chamou para a sua sala e tivemos uma longa conversa. Queria saber como eu me sentia, quais eram meus planos para o futuro e se eu tomava antidepressivos. Quando eu disse que não usava nenhuma medicação, ela citou novamente os antidepressivos e disse que talvez fosse uma boa ideia tomá-los. Não sei se ela era psicóloga ou psiquiatra (provavelmente nenhuma das duas coisas), mas de uma forma ou de outra foi bom conversar com alguém, por mais que eu não tenha revelado nada ou me aberto. Foi bom sentir que alguém me via.

Algumas crianças parecem ser “naturalmente” mais reservadas, mais sossegadas. Mas recordo muito bem de ter sido uma criança alegre, que ria com tudo e brincava com todos. E vi isso desaparecer. Me tornei outra pessoa. Os eventos da minha infância foram determinantes para formar a pessoa que sou hoje. A personalidade que tenho hoje é um reflexo de anos tentando superar acontecimentos antigos. Acho que entender o que aconteceu e como isso me influenciou é importante e à medida que escrevo sobre isso, passo a me conhecer melhor.

domingo, 4 de março de 2012

A ferida ainda não cicatrizou

Pensei que poderia expor toda a minha trajetória até o momento atual sempre mantendo certo distanciamento, como se fosse a história de outra pessoa. Para ser honesto, no começo foi exatamente assim, mas não durou muito. Escrever foi relembrar e reviver determinados eventos. Isso fez com que não me sentisse muito bem, ao mesmo tempo em que me trouxe uma melhor compreensão, da qual falarei aqui mais tarde. Por esse motivo o intervalo entre os posts às vezes são longos. Faz quase 4 meses que não posto nada e não posso prometer uma maior periodicidade a partir de agora. Mas sempre que resolver escrever, o farei.

De uma forma ou de outra, fazer esse blog, ao menos para mim, foi muito bom. Por mais que doa mexer na ferida, talvez esse seja o remédio. Ou talvez não haja remédio, não sei. Terapia me parece uma ótima ideia e pretendo fazer um dia. Mas a questão é que colocar tudo isso no “papel” me fez ter uma percepção mais ampla e sinto que me conheço melhor agora, embora ainda tenha muito a dizer.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Não aconteceu, não aconteceu, não aconteceu... (10)

Acredito que a negação tenha se iniciado assim que tomei consciência (mesmo que parcial) do que havia acontecido; foi simultânea à primeira série e ao curso que fiz com o professor violento. A negação durou até o fim da pré-adolescência. Mas penso que até os dezessete anos eu me esforcei para manter isso longe da minha mente.
Como eu já disse em outro post, toda vez que a lembrança vinha à minha mente, eu meneava a cabeça bruscamente, em sinal de negação, e repetia a mim mesmo que aquilo não havia acontecido. Até hoje a lembrança principal que tenho e que foi a que sempre me atormentou, foi a que eu já descrevi aqui no post “O Começo”.

Eu estava de bruços, chorando e tentando dizer que estava sentindo muita dor. É essa a lembrança que mais me atormentou. Por motivos que não sei compreender, por regras básicas sociais infringidas, por culpa, confusão e vergonha, eu sentia algo que era um misto de todos esses sentimentos. E no meio de toda essa tormenta, eu negava. Sem convicção, sabendo que não havia sentido nisto, com a fraca esperança de um dia apagar da minha mente tudo isso, eu negava.
Começou aí algo que pouco mais tarde se intensificaria muito: “pensamento acelerado”. Em alguns momentos meus pensamentos se tornavam tão rápidos que eu simplesmente não os conseguia acompanhar; não conseguia acompanhar aquilo que eu mesmo estava pensando. Junto com isso, me sentia sufocado e tinha a sensação de que o espaço ao meu redor estava se fechando sobre mim. Depois farei um post apenas sobre isso, descrevendo o ápice dessa crise.

Do que será que eu tinha tanto medo? Medo que descobrissem o que aconteceu? De ser humilhado? De onde vinha tanta negação? Preciso ler mais artigos sobre o assunto para tentar entender melhor. Esse ano devo ter lido uns seis artigos acadêmicos sobre o assunto (desde que criei o blog) e eles foram bastante esclarecedores e interessantes em diversos aspectos. Antes eu já havia lido matérias e artigos superficiais sobre assunto, mas nada que se compare aos artigos acadêmicos.
Também traduzi alguns vídeos, colocando legendas. Fiz uma pesquisa por vídeos no YouTube e os melhores que encontrei não estavam em português e muito menos legendados.  Os que traduzi estão linkados abaixo:



As legendas estão longe de serem perfeitas. Bem longe! Mas fiz o que pude. Quando tiver tempo traduzirei a 2° parte do vídeo sobre a Nicole B. Bromley.

sábado, 12 de novembro de 2011

Professor Violento (9)

Eu já li que pessoas que sofreram abuso na infância possuem uma tendência ou vulnerabilidade que as tornam mais suscetíveis a sofrerem outros abusos, por parte de outras pessoas. Não sei se é o meu caso ou se simplesmente sou azarado, mas as más experiências não cessaram depois do primeiro abuso.
Como eu já disse, meus pais estavam sempre trabalhando, então, depois de um tempo passando longos períodos dentro de casa, sozinho, eles resolveram me colocar em um curso extraclasse. Esse curso foi o primeiro do qual participei, e, por motivos de confidencialidade, não direi do que era. Foram tantos os “cursos” que fiz que vocês podem imaginar qualquer coisa... Pintura, por exemplo.

Eu não lembro exatamente com que idade começou, mas sei que foi após os sete anos e não antes dos nove. Durou anos. No começo eu até fiquei empolgado com a ideia de sair da rotina, embora fosse assustador me imaginar num ambiente com diversas outras crianças. Lembro que fui introduzido em um grupo e logo aprendi as regras. Não poderia ir ao banheiro sem pedir permissão, deveria desempenhar as atividades conforme me era instruído e também, sempre que quisesse falar, deveria levantar o braço e coisas do tipo.


O professor era bastante truculento e tratava alguns dos outros alunos de forma muito ruim, mas, de início, eu era deixado no meu canto, fazendo minhas atividades. Mas não demorou para que o professor começasse a prestar atenção em mim e a acompanhar, com certa severidade, tudo o que eu fazia. Ele era bastante exigente e não tinha paciência para explicar as coisas mais de uma ou duas vezes. Foi aí que minha vida se tornou um inferno, pois eu passava a semana inteira aflito pensando nos dias que teria que ir para este curso.
A violência começou de forma verbal... Quando estava fazendo algo errado, eu (e outros alunos também) éramos humilhados, xingados e/ou isolados em um canto. Lembro-me das frases e dos palavrões: “Eu já te falei como fazer! Por que você tá errando?”, “Você é um bocet*! Já te disse como fazer!”, “Por que você tá com as mãos no bolsos? Tá coçando o saco?”, “É só elogiar que você começa a fazer tudo errado de novo!”. Os palavrões eram dos mais escabrosos e muitas vezes com apelação sexual.

Ele também, em alguns momentos, pedia para que sentássemos no chão, e aí contava piadas, muitas delas com teor sexual. Eu lembro que me tornei obcecado por fazer tudo o mais correto (de acordo com os padrões do professor) possível, mesmo que muitas vezes eu simplesmente não entendesse o que ele queria que eu fizesse. Foi aí que a violência física começou... Antes de bater em mim, ele já havia feito isso com outros alunos. Começou com beliscões, que doíam muito, diga-se de passagem, até ser empurrado e levantado de onde estava e sacudido em seus braços.
Mesmo assim, por algum motivo, eu não contava absolutamente nada para os meus pais. Tentava agradá-lo e quando fazia algo certo e recebia um sinal positivo do professor, eu ficava bastante satisfeito e aliviado. Queria que ele aprovasse o que eu estava fazendo. Mas, acima de tudo, me sentia burro. Muito burro. E isso era o que mais me incomodava. Pensava comigo mesmo: “Não consigo fazer nada certo”.

Mesmo assim, chegou um momento em que eu simplesmente me recusei a voltar às aulas. Fui então levado com minha mãe até o lugar e ele disse a ela que eu não estava fazendo as coisas corretamente, mas que eu poderia melhorar e que ele queria que eu continuasse participando. Fui persuadido a apertar sua mão e voltar. Mais tarde eu iria me arrepender muito disso, não apenas por ter voltado às humilhações e para o estresse e tensão com dia marcado, mas por ter apertado aquela mão e ter sido convencido a retornar. Mais tarde eu voltei a deixar de ir, para nunca mais voltar. Acredito que tenha ficado nesse lugar durante cerca de três anos.
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